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Diários do Sertão – o “Sertão como se fala” também em áudio

O Sertão como se fala está na estrada, está na internet e agora também no rádio.

Em uma parceria com a Rádio UFMG Educativa, pílulas produzidas por Sarah Dutra diretamente do sertão estão sendo transmitidas pela estação do conhecimento.

Ouça a primeira pílula dessa série!

[Você escuta a UFMG Educativa em toda a região metropolitana de Belo Horizonte sintonizando o 104,5 FM e em todo o mundo viawww.ufmg.br/radio.]

 

 

Quando o coração apertou

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Foto: Sarah Dutra

por Sarah Dutra |

De Euclides da Cunha, na Bahia, fomos até um povoado chamado Serra Vermelha atrás de uma senhorinha, que nos foi muito indicada.

Apesar de não termos mais indicações sobre onde ela morava, apenas procuramos o nome e já nos apontaram a casa certa. Fomos recebidas muito bem e em certo momento da conversa, ela chamou o marido e disse, apontando pra mim: “João, ela não parece a Kelly? É minha nora”. Correu para dentro da casa e trouxe uma foto com um casal. “É meu filho e minha nora. Não parece com você?”. Achava que não, ela tinha um sorriso tímido e dentes pequenos, o meu é largo e tenho dentes enormes. Mas disse que sim, que alguma coisa parecia. Na verdade, ela me lembrava minha avó paterna. Baixinha, ligeiramente gordinha e parecia gostar de um papo. Só eu era capaz de fazer uma comparação entre as duas. Bem como ela me comparava à nora.

Até que a senhorinha comentou que a comadre dela, a mesma forma como minha avó chama as amigas, tinha 91 anos e uma memória muito boa.

No mesmo momento me lembrei da minha avó materna. Ela tem 91 anos, está chegando nos 92 e é bastante lúcida.

Fomos até a casa da comadre. Uma senhora que também adorava uma conversa e que tinha respostas rápidas e “atrevidas”, digamos assim. Bem como minha avó materna.

Quando já estávamos de saída insistiram para que lanchássemos com elas. Não aceitamos, pois ainda tínhamos muita estrada para voltar a Euclides da Cunha. Nos despedimos e acompanhamos a mais nova das senhoras até a casa dela. No meio do caminho parou em uma venda e nos deu goiabas, como uma boa avó faria.

Por fim, quis saber o nome das duas. Ambas se chamavam Maria. Minhas duas avós se chamam Helena.

Os primeiros dias: estrada

Foto: Sarah Dutra

Foto: Sarah Dutra

por Sarah Dutra |

Pelo caminho que nos levou até Feira de Santana, eram muitas as casinhas solitárias que surgiam próximas à rodovia. Singelas, compunham com perfeição o contexto que ocupavam. Enquanto isso, no asfalto, algumas cegonheiras pediam atenção, elas desviavam das árvores.  Em alguns pontos, ao longo do acostamento, crianças com bonecas e mulheres com lenços nos cabelos se posicionavam com as mãos estendidas aos carros que corriam.

Um homem-placa anunciava: “Rodízio a R$11,90”. Logo mais a frente surgia uma pequena construção com um banner indicando que aquela era a churrascaria “Fome Zero”.

Mais pessoas esticavam suas mãos pela rodovia.

Surgiu um pequeno povoado, com pequenas casas e uma pequena igreja no centro. Logo desaparece.u

No carro, o ar condicionado estava no marcador 2 e se usava óculos de sol. Os vidros eram escuros e estavam fechados. Luiz Gonzaga cantava que “metade do Brasil passa fome”.

Até ali, 88 fotos da estrada.

Aos poucos o cerrado deu lugar à caatinga. Os morros deram lugar a uma imensidão sem fim sob o céu azul, azul como poucas vezes vi.