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Ah!, o Sertão…

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Por Leandro Lopes |

As transcrições de todas as imagens, de todos os 34 dias, de todas aquelas estradas, de todos aqueles encontros, estão chegando ao final. Estas quase 100 páginas de word estão a virar um bloco de anotações na mão e um pré-roteiro na cabeça. O que era sentimento de angústia, vem virado substâncias de alegrias. Falta pouco a transcrever e a sensação que me atola é aquela mesma de quando um bom livro vem chegando ao final. Ah!, o Sertão…

dia 115 d.S. (ou sobre a angústia e o amor de montar)

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por Leandro Lopes |

Eu queria nunca ter visto filme nenhum. São quase quatro horas da manhã. Passei a noite (ou madrugada) a rever o sertão que a gente viu e registrou. Na ilha de edição na qual me encontro, só agora percebi que desde o início do mapeamento eu tento ver o filme como eu gostaria que ele fosse. Talvez seja o mesmo filme de quando nem filme existia, de quando ele era somente um sonho, de quando 34 dias de estrada era quase uma abstração. Feito filho que a gente custa a acreditar que não é lá um grande jogador de futebol. Que a gente custa a perceber que o negócio dele é a patinação. Ao não encontrar o filme que cismei que existia, tenho uma sensação aguda de uma decepção abestalhada.

A madrugada foi longa! Mas agora, às 4h, vejo que o filme que se constrói, não sei por quais forças externas, por quais ventos soprados, é, de fato, melhor do que o filme que eu queria. É quase uma facada no peito. É uma traição que é construída sem traidor. É a angústia que desceu ao playground a zombar desse pobre aspirante a documentarista. Talvez o filme que eu queria tanto é aquele carregado de bagagens que agora eu desejava não ter. Não que tivesse muito, mas o pouco que tenho já me sobrecarrega demasiadamente neste instante. Queria nunca ter visto outros filmes. Amanhã, logo cedo, vou tentar imaginar um deserto, desvendar outros recomeços. Admitir que a certeza sobre um filme que insiste em não existir e que não existirá, é fato, é o pior caminho que tenho para percorrer nessa imensidão de possibilidades. Amanhã, será um depois possível. Decepcionado, é engraçado isso, me sinto agora, a saber dos meus erros, um grande apaixonado por tudo isso.

dia 64 d.S.

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Por Leandro Lopes
Foto: Sarah Dutra

Há 30 dias fazíamos nosso último take. Olhávamos para o São Francisco, cada um via um filme a ser finalizado. De lá para cá, encerramos nossa bonita campanha no catarse, cuidamos de burocracias e pendências (dessas que nunca aparecem em filmes), fizemos reuniões sobre o futuro, reorganizamos a casa, no caso o Coletivo Adiante, e deixamos todo o material, seus quase dois terabytes, em descanso. É bom manter uma certa distância, dizem. Esses dias, fiquei olhando para a ilha de edição e tentando imaginar em que tudo isso resultará, se os planos do primeiro corte darão certo, se os sonhos das madrugadas ansiosas se tornarão reais, se o filme será capaz de traduzir tudo aquilo que nossos entrevistados (objetos, encontros) nos espetaram e atravessaram durante aqueles dias calorosos. Tenho achado que a maturação já anda a ganhar mofos e, se não se trata de ansiedade em demasia, já passou da hora de começar a fuçar tudo e descobrir se os planos andarão por caminhos conhecidos e já sonhados ou teremos que percorrer outros trajetos de roteiro para finalizar nossas imaginações de sertão. Esses dias passo a ouvir tudo que anda silencioso nos arquivos dessa ilha de edição. Vou dar vozes aos nossos medos de acertos e erros. Vou começar pelo último take.

Dos 34 dias de sertão

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Do pouco que li, ouvi e vi sobre cinema, aprendi que é possível percorrer incontáveis caminhos e percebi que existem infinitas formas de se fazer um documentário. Dizem até que cada filme é um modelo de produção diferente, piorado ou melhorado, em relação a um outro qualquer. Cada processo no seu quadrado. Mas de nenhum desses teóricos, cineastas, produtores, atores, amantes, cinéfilos, amigos, desse povo todo que me forma enquanto alguém interessado em cinema, de nenhum deles, ouvi dizer que existe uma forma de fazer um filme a partir do amor de uma equipe. Ninguém! A experiência que acabei de viver, de 34 dias no sertão, me conta, ao pé do ouvido, que esse filme que começa a ser montado agora, é um resultado de muitas coisas, mas é, sobretudo, o resultado de um trabalho de pessoas que se afetaram, se amaram, e se costuraram ao longo dos mapas, estradas, hotéis, praças, ruas, vielas, caminhadas, cafés e cigarros.  Seus bastidores é sobre uma produção de pessoas que se respeitaram, que se ouviram, que se contestaram, que se duvidaram, que se acreditaram. Seu resultado dificilmente mostrará isso porque não é um filme sobre a produção de um filme, mas a gente sabe que ele só foi possível porque existiu afetos e sorrisos coletivos. A gente sabe que ele só foi possível porque nossos olhares se entrecruzam, nossos apertos emitiram sinais, nossas conversas renovaram os espíritos, nossos choros ganharam abraços sinceros. Nesses 34 dias fui bem mais feliz do que esperava. Fui bem mais feliz do que a felicidade de alguém que realiza um sonho e constrói um filme. Fui bem mais feliz porque tive uma imensa equipe do meu lado. Dos 34 dias de sertão, aprendi que sou alguém sortudo no mundo.

dia 26

Foto: Leandro Lopes

Foto: Leandro Lopes

por Leandro Lopes

Ainda falta muito de tudo: estradas, cidades, estados, entrevistas e, sobretudo, encontros. Ainda falta muito das coisas que a gente esperava e também daquelas que a gente não planejava. Ainda falta muito, eu sei, mas a viagem chega à sua última semana e meia. Também sei que não dá para não ser dramático e medroso. Fujo do fato de que tudo acaba, embora tenha certeza que cada quilômetro rodado é sempre um atalho para o fim. Da viagem, do filme, dos encontros, da vida. Hoje a gente segue para a Paraíba e o cronograma foi revirado. Carrego aqui nas areias do sapato e na agora amarelada havaianas as lembranças da Bahia, de Sergipe, de Alagoas e Pernambuco. Sensação de muitas escolhas certas, certezas de decisões erradas. Tudo faz parte e só serve para ferver as ideias já descontruídas de um certo filme que a gente veio fazer e que já deu lugar a um outro. Muito o que definir. Qual será o trajeto? A próxima cidade? O prato de comida? O lugar das entrevistas? A calibragem do pneu? Várias dúvidas de cada vez e nenhuma certeza será bem-vinda! Ainda faltam muitos bons sonhos pela frente, mas já ando sentindo saudades dos dias que vivi e dos que ainda vou viver.

dia 14

Foto: Eduardo de Ávila

por Leandro Lopes |

Quando o rio vaza-barris afundou as ruínas de canudos, com a construção da barragem em 1969, ninguém talvez tenha percebido que se cumpria assim a profecia conselheirista de que o sertão iria virar praia. Onde antes era terra seca e pedra, hoje é mar. Ontem, a equipe do Sertão como se fala esteve o mais próximo possível da única parte da cidade não submersa, uma ponta de uma das igrejas da Canudos reconstruída ou segunda Canudos que foi erguida depois do massacre e genocídio da Belo Monte de Antônio Conselheiro. Assistimos ao por do sol e o aparecer das estrelas. Noite clara, clima quente. Dali, olhando a ponta da igreja e o céu, fiquei pensando naquelas almas, histórias e memórias submersas, escondidas por força militar de um desejo de esquecimento. Pensei que é preciso ser forte até mesmo para lembrar da Canudos do velho Conselheiro. Pensei que é preciso doses potentes de resistência para se permitir a sobrevivência das lembranças. Pensei que nesse ato de lutar para se fazer presente, Canudos grita suas vitórias, emite os sons a dizer que são de pequenas, mas também das grandes revoluções que se edifica caminhos melhores e possíveis. A dita nova Canudos é pobre, seca e carente, mas existe nesse povo daqui um olhar vitorioso de quem resistiu, um olhar que nos diz que a omissão é a pior maneira de morrer afogado.

dia 12

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Foto: Sarah Dutra

por Leandro Lopes |

décimo segundo dia: quase um terço da viagem. pouco mais de 2 mil quilômetros. 2 mil! muitas alegrias confirmadas e algumas coisas faltantes. tudo ainda dentro do planejado. era para eu estar feliz com isso, eu sei, mas tenho medo de tudo ser planejado demais. temo que tudo dê certo demais. imprevistos acontecem pra gente se construir novamente. mas também não adianta muito planejar o imprevisto, se armar para esperá-lo. tenho vontade de que apareça alguém, alguém desses que nunca me ocorreu de pensar em entrevistar, que no primeiro momento seja capaz de causar uma reação negativa e que demore dois minutos para me deixar sedento de vontade de ouvi-lo. dessas coisas que deveria acontecer sem a gente desejar antes. a verdade é que provavelmente esteja sendo ingrato com a sorte de ter encontrado uma linda chuva em Serrinha, um bonito por do sol em Monte Santo, os olhares curiosos de toda a equipe em Caldas do Jorro e as lindas falas de alguns entrevistados por aí. é possível que eu já tenha encontrado coisas que não imaginava, mas ainda não dei o braço a torcer.