O sertão daqui, de longe, é a avançação da saudade

O diretor Leandro Lopes esteve nos últimos nove dias acompanhando o projeto O Caminho do Sertão: que promove um mergulho socioambiental e literário no universo de Guimarães Rosa e no cerrado sertanejo das gerais. Do norte de Minas Gerais, viu o que Riobaldo descreveu em Grande Sertão: Veredas. Comeu poeira e registrou sensações. Não gravou para o Sertão como se fala, mas para outro projeto que vem trabalhado na Rede Minas de Televisão. De todo modo, ele carrega dessa viagem alguns afetos que atravessarão o documentário certamente. O primeiro retrato disso é o que escreveu assim que voltou para a cidade grande, Belo Horizonte: um texto das imagens das suas sensações de saudades dos dias vividos. “O sertão daqui, de longe, é a avançação da saudade”, diz Leandro.

O sertão daqui, de longe, é a avançação da saudade

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De Leandro Lopes para Riobaldo

Ainda no carro, com gosto de poeira na boca, estávamos todos (falo da equipe de Rede Minas de Televisão) a rever as fotografias dos dias passados. Nove dias! Ser feliz talvez seja recordar o alegre e sorrir sozinho olhando pela janela do carro a ver a estrada que vai ficando pelo caminho.

Se já é difícil deixar de viver a felicidade, imagina quando ser feliz é uma sonhação intensa e real de nove dias seguidos? O caminho do sertão gerou, para mim, sonhações reais. O caminho do sertão foi querer ficar em silêncio no caminhar, mas ser imensamente alegre com o barulho dos convercês. Foi acordar às 4h, mesmo quando foi-se dormir às 2h, e sacudir a barraca como quem dança uma cantoria alegre. O caminho do sertão foi traçar léguas de afetos e xilogravar 160 quilômetros de recordações. Sagarana, Morrinhos, Igrejinha, Fazenda Menino, Córrego do Garimpeiro, Ribeirão de Areia, Vão dos buracos, Chapada Gaúcha. Andei menos a pé, Riobaldo, mas não deixei de planar nas sensações dos outros.

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O sertão daqui, agora, de longe, é a avançação da saudade. Já sinto falta dos buritis, do céu, do calor, do sol, das conversas, dos abraços… já sinto falta de me achar de lá, de encontrar razões de ser sertanejo, de ter orgulho de um sertão que ainda não era o meu (mas que agora é!). O caminho do sertão transforma a gente por dentro, rapaz. Me gela agora de não poder palavra para dizer o que quero. Vivê-lo não coube em vocabulários. É como falar, falar, falar e não dizer nada. Talvez seja isso a explicação. Talvez explicar seja, de fato, diminuir.

A verdade é que tenho medo. Eu sei que careço de coragem, mas escrever um pouco sobre tudo, ainda que fale pouco, é uma forma de tentar eternizar em palavras, o que só o arrepio é capaz de mostrar. Eu sei, eu sei, Riobaldo, e não me engano, que todo domingo enterra um sábado. Ando a pensar assim olhando a janela: escrever é um modo de tentar eternizar as lembranças. Melhor assim do que a presunção de achar a memória inesgotável. Um dia ela desata os nós – o escuro, escuros. Me alembrei que me disseram, ainda no carro, com gosto de poeira na boca: despedir dá febre.

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