20 dias a.S.

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Estrada com mandacarus – Serrinha (BA), por Leandro Lopes

Permita-me falar em primeira pessoa. Desde que olhei Serrinha, na Bahia, pelo retrovisor de uma Saveiro branca abarrotada de móveis no dia 3 de dezembro de 2001, eu sabia que algo dali ficaria em mim. As pessoas transformam os lugares, mas os lugares também transformam as pessoas. Ainda que de longe e, talvez, mais ainda pelo fato de se estar longe. A partir dali, Sertão deixou de ser o meu lugar real, do presente, e passou a ser o lugar do meu encontro, um lugar literário onde verdades e invenções se misturam. Passei a gostar mais de carne de bode, a adorar o sotaque, a reafirmar que falo lê e não éle! O Sertão passou a ser recordações que nem sempre são minhas de verdade. Passou a ser lembranças que nunca sei ao certo se são de coisas que vivi ou de coisas que inventei. Nem tudo foi épico e lindo na minha adolescência. O Sertão é um lugar expulsivo, duro, que exige coragem de se viver. Mas quando quero contar sobre esse mesmo lugar, quero contar sobre um Sertão de fortes homens e mulheres. Falar da beleza do grandioso, da secura como elemento estético. A realidade deverá também ser outra, eu sei. Faltam 20 dias para a gente se reencontrar. Tenho alguns muitos medos. Medo de descobrir minhas invenções, de vê-lo com olhos de estrangeiros que não deveriam ser os meus, mas depois de 13 anos é possível que eles sejam de um outro diferente daquele que olhou o retrovisor. Medo de não achar importância em coisas que considero hoje fundamentais. Em 8 mil quilômetros, temo não me encontrar como o adulto que sou hoje, mas certamente serei feliz por reencontrar a criança que um dia eu fui.

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Uma ideia sobre “20 dias a.S.

  1. Antonio Aldemario da Silva

    Permita-me querido Léo, entrar na sua seara, para comungar deste mesmo sentimento marcante que o retorno nos oportuna. Na realidade, -lá vou eu, falando de realidades,- nós, que vivenciamos as dificuldades inerentes a um município cheios de carências e encaramos o desafio de buscar em outras paragens, o quinhão que completaria nossa formação, olhamos sempre pelo retrovisor, para enxergar nosso pedaço de chão. É nossa referencia!

    -Sim, interagimos com o novo, sem deixar que se apague às lembranças do que fomos. Ao chegar, você encontrará uma Serrinha diferente, mas será também a mesma Serrinha de sempre. Você e ela se transformaram mas, estarão ligados pelas raízes e sentimentos onde habita as lembranças do que foi vivido e onde as invenções podem e devem coabitar, ainda mas quando, o personagem, é mestre na arte de escrevinhar estórias e com elas, já está fazendo histórias.
    Venha ver seu povo!
    Venha comer carne de bode.

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